sábado, 17 de março de 2012

Ideais Republicanos (Em Montagem)


15 DE NOVEMBRO DE 2009
PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA

Ideais
Dinamismo da História

No Manifesto Republicano:
“Esta era a República que os republicanos históricos sonhavam para o Brasil, um grupo de 57 homens considerados na época por “baderneiros”, a maioria profissionais liberais, baseados em correntes liberais de inspiração francesa e norte-americana, em plena “era monárquica” de Pedro II manifestaram seus ideais e fizeram nascer os moldes iniciais da República brasileira”.

- Infelizmente, no decorrer dos primeiros anos dos governos militares e civis, a República foi abalada por incessantes golpes inconstitucionais e por modelos governamentais, como a Política dos Governadores, totalmente avessos aos ideais do Manifesto Republicano.

A transição do Império para a República, percebemos que a movimentação política aconteceu somente com a classe dominante do país e que os políticos portadores do poder no Império continuaram a exercer seus cargos na era republicana.
O Povo, somente assistiu passivo, sendo manipulado quando necessário, nesta passagem histórica da vida brasileira.

Nas palavras de Aristides Lobo, político da época, o povo assistiu a Proclamação da República “bestializado”.
Esta expressão, tão instigante, leva-nos a entender a legitimidade da República pela indiferença, ignorância, apatia das camadas populares, onde somente os “homens letrados” entenderam o que acontecia em 1889.
- Para o povo, que diferença fazia ser o Brasil um Império ou uma República.
- Os representantes políticos mudariam suas baixas condições de vida.
“Esta situação assemelha-se também com os dias de hoje, onde muitas vezes entra um novo partido no governo e nada muda na política brasileira”.

O “problema” do povo apareceu depois da Proclamação da República, onde era necessário conquistar o imaginário popular à adesão da jovem República.
Isto posto, para compensar a falta do envolvimento popular na Proclamação, os políticos, principalmente os positivistas (idealizadores de uma sociedade linear e progressista na República), criaram uma simbologia republicana, que tinha nos “mitos” sua principal fonte para alcançar o imaginário social.

Os símbolos destacados neste período foi a “alegoria feminina” da República, o herói nacional vestido na figura de “Tiradentes”, a “bandeira e o hino nacional”.

- A República na figura de uma mulher, denominada “Marianne” (inspiração de um união de dois nomes comuns de mulher na França), representava a queda da imagem masculina do rei e a seqüente “era” de Liberdade.

- O herói nacional Tiradentes, possuía de fato a “cara do povo”, um sofredor da história das lutas nacionalistas, sua figura propositalmente passou a assemelhar-se com o rosto de Jesus Cristo.

- A bandeira e o hino nacional, por fim, exprimiam “bravamente” os ideais positivistas de ordem e progresso, de uma nação em “estágio superior”: - a República.

O problema maior deste quadro cultural foi a falta de identidade autenticamente brasileira na instalação da República, devido a forte influência dos ideais franceses.

- A Proclamação da República brasileira pode ser considerada “tardia” em relação aos demais países latino-americanos, todavia, os movimentos republicanos no Brasil surgiram até mesmo antes da Independência, o “problema” maior para sua efetiva consolidação foi a habilidade política do Império de Dom Pedro II, o qual deixou sua coroa com 49 anos de governo ininterrupto.

Os ideais republicanos no Brasil criaram maiores forças e se expandiram depois da criação:
- Partido Republicano Paulista em 1870, a publicação do Manifesto Republicano contido no jornal A República assinado por 57 pessoas:
- Convenção de Itu realizada em 1873.

- A postura do Imperador D. Pedro II nesta situação era de certa estranheza, já que há rumores que em certa ocasião ele disse a Antonio Prado:
“Eu sou republicano. Todos o sabem. Se fosse egoísta, proclamava a República para ter as glórias de Washington”.

Pedro II era de fato um homem curioso e pervicaz.

O ano da Proclamação da República foi 1889 e se pensarmos nesta data sublimemente, perceberemos o quão fatídica foi a instalação da República brasileira.
Em 1889, a França comemorava o centenário da Revolução Francesa (1789) e, nas comemorações em Paris, o Brasil era a única monarquia presente, mas no exterior o Brasil não era considerado uma monarquia absoluta, pela forma de governo de D. Pedro II.
O centenário da Revolução que marcou a história da humanidade em derrubar uma monarquia absoluta animou os ânimos das camadas mais radicais até as classes conservadoras do Brasil, mais tarde, também republicanas.

A República brasileira foi comumente planejada em um conluio envolvendo os militares do Rio Grande do Sul, os cafeicultores paulistas e alguns outros políticos liberais.
O golpe foi planejado para o dia 20 de novembro, mas pelo adiantamento dos boatos (implantado pelos republicanos) ocorridos na capital federal de que o Marechal Deodoro iria ser preso pela Guarda Nacional do Império, no dia 15 de novembro foi instaurada a República no Brasil.
República “comandada” por um líder que nunca foi republicano e mal sabia dos boatos a respeito da sua suposta (e falsa) prisão, Marechal Deodoro da Fonseca, só aceitou o cargo de primeiro governante para não subjugar o exército, ao qual era importante membro, à Guarda Nacional, acabou sendo um “ditador”, cargo nunca exercido por D. Pedro II.
A Família Real partia ao exílio na Europa, dois dias depois e, de fato, do dia 14 para 15 de novembro o Brasil “dormia Império para acordar República”.
A missão da política brasileira era, agora, “acostumar” o Povo com o novo regime.

Referências Bibliográficas:

REFERÊNCIA: CARVALHO, J.M. Dom Pedro II: ser ou não ser. 2007.
REFERÊNCIA: CARVALHO, J.M. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. 1990.
ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO" (BARRETOS/SP), EM 13 DE NOVEMBRO DE 2009.

República Alegórica

O cotidiano repleto de símbolos e alegorias
- Abrimos os jornais e observamos nossos políticos serem representados por figuras carregadas de significados, como um porco, um marajá, um burro.
Atribuímos a profissão de padeiro aos portugueses.
Os chineses e japoneses são donos de pastelaria e são muito inteligentes.
Não precisamos trabalhar no dia 21 de abril, mas não lembramos por que; apenas agradecemos por não termos que aturar nosso insuportável cotidiano, a data em que é lembrada a morte (por enforcamento e esquartejamento) de Tiradentes, fazemos um churrasco.
Mas, lembramos do significado do dia 7 de setembro, pois levamos nosso filho para a principal avenida da cidade a fim de reuni-lo com seus colegas e professores da escola para celebrar a Independência numa passeata. E nos orgulhamos e tiramos fotos. Principalmente se nosso filho está carregando a bandeira nacional, símbolo enraizado em nossos corações, o qual também nos identifica em eventos mundiais, como a Copa do Mundo ou as Olimpíadas.
Existe uma lista infindável de símbolos e alegorias que se encontram enraizados em nosso imaginário (como o hino e a bandeira nacional) ou que são apenas tentativas de formá-lo (como o feriado de 15 de novembro).

Proclamação
- A Proclamação da República no Brasil é considerada um evento histórico muito controvertido, no qual houve uma verdadeira batalha entre ideologias republicanas pela legitimação do novo regime.
Dentre as formas buscadas para essa legitimação, a elaboração de um imaginário social é parte integrante. Nessa elaboração, foi dada muita importância à expressão dos sentimentos republicanos através de símbolos, alegorias, rituais e mitos.
Atingir o imaginário popular a fim de agregar-lhe valores republicanos era um dos principais objetivos dos envolvidos na citada batalha.
Além das divergências entre as correntes ideológicas envolvidas, encontrava-se também o fato da República ter sido proclamada sem a participação popular.
Então a necessidade de se criar um imaginário social sobre a República.
Não basta mostrar ou inventar a verdade, é necessário fazer com que o povo a ame, apoderando-se de sua imaginação, formando almas.

Legitimação
- Na busca pelo entendimento da legitimação da República brasileira, o cientista político e historiador José Murilo de Carvalho, em sua obra “A Formação das Almas: o imaginário da República no Brasil”, concentra-se no tema da batalha pelo imaginário popular republicano.

No mundo moderno, a ideologia é o instrumento para a legitimação de regimes políticos. Mantendo sua tradição de exportador de matéria-prima e importador de manufaturados, idéias e instituições, no contexto histórico da proclamação da República brasileira havia três correntes ideológicas:
- O liberalismo à maneira norte-americana (prezava a individualidade),
- O jacobinismo à francesa (prezava o coletivo),
- O positivismo (divididos entre os positivistas e os positivistas ortodoxos).

Supunham modelos de república, de organização da sociedade, carregados de aspectos utópicos e visionários. Essas ideologias disputavam a definição da natureza do novo regime político brasileiro. Nessa batalha, cada uma delas, à sua maneira, defendia o envolvimento popular na vida política.
Dentre os três distintos modelos de república disponíveis aos brasileiros, o norte-americano e o positivista davam ênfase à organização do poder, enquanto o jacobinismo colocava a intervenção popular como fundamento do novo regime.
Com exceção de poucos radicais, os vários grupos ideológicos acabavam dando ênfase ao Estado.
A dificuldade brasileira, tanto com os modelos antigos quanto os modernos, foi a falta da “existência anterior do sentimento de comunidade, de identidade coletiva, de pertencer a uma nação”.
Sem esse sentimento, negligencia-se o fato universal da diversidade e do conflito.

Nessa busca pela criação de um imaginário sobre a República, os vencedores do 15 de novembro tentaram construir uma versão oficial dos fatos, ampliando ao máximo o papel dos atores principais e reduzindo ao mínimo a parte que coube ao acaso.

Batalha pelo estabelecimento do mito de origem.
- Nesta luta, o embate se dava entre os partidários de Deodoro da Fonseca, Benjamin Constant, Quintino Bocaiúva e Floriano Peixoto.
A luta maior é pela qualificação de fundador, entre Deodoro da Fonseca e Benjamin Constant e se estende até hoje.

O Herói
- Com a análise das tentativas de construção desse mito de origem, pode-se descobrir as contradições que marcaram o início do regime, mesmo entre os que o promoveram: - o mito da origem ficou inconcluso, assim como a República.
Vistas essas divergências, nota-se a dificuldade em encontrar ou construir um herói para o novo regime.
O tema do herói interessa ao autor por ser um instrumento eficaz para atingir a mente e o coração do povo. Heróis são símbolos poderosos, encarnações de idéias, pontos de referência para a identificação coletiva.
No caso da República brasileira, a construção do herói pode servir também para compensar e preencher o vazio da participação civil em sua proclamação. O personagem que aos poucos se revelou capaz de atender às exigências do mito não estava presente no evento da proclamação:

Tiradentes
Esse patriota, em seus últimos dias na prisão antes da execução, transformou-se num místico por força dessa experiência traumática e da lavagem cerebral que sofreu pelos frades.
Esse misticismo final não destruiu seu apelo patriótico.
A coragem que demonstrou vinha do fervor religioso.
Assumiu explicitamente a posição de mártir, identificou-se abertamente com Cristo. Tudo isso se encaixava perfeitamente no sentimento popular, marcado pela religiosidade cristã.
Não dividia as pessoas ou as classes sociais.
Ligava a República à Independência e indicava o caminho para a liberdade.
Até os dias atuais, sua figura é utilizada por conservadores e liberais, por revolucionários e reacionários.
Tanto pela esquerda quanto pela direita.
O segredo para a vitalidade desse herói: - “a ambigüidade”.

Alegoria
- Alegoria feminina no imaginário republicano francês, e sua tentativa de importação pelos brasileiros.
A alegoria da Primeira República francesa inspira-se na tradição clássica da deusa Atena.
Na Segunda República, a alegoria agora é apresentada como uma mulher amamentando duas crianças, retirando o aspecto belicoso anterior.
No período que precedeu a Terceira República, com a luta contra Napoleão III, recuperou-se a antiga representação. Como reação, o governo incentivou o culto à Virgem Maria. Eis uma batalha de cultos.

- Na importação dessa alegoria pelo Brasil, o esforço inicial deveu-se aos cartunistas, os quais utilizaram o modelo clássico.
Apesar disso, os pintores, excetuando-se os positivistas, praticamente ignoraram o simbolismo feminino para a República.
No caso dos positivistas, a mulher poderia ser utilizada na representação da escala dos valores positivistas, fugindo da representação clássica e da identificação com a mulher brasileira.
Porém, este problema de identificação da alegoria com as brasileiras foi resolvido de forma prejudicial para a República.
O desapontamento quanto aos rumos que a república brasileira tomara foi expresso pelos caricaturistas, que passaram a utilizar a figura feminina para ridicularizar a República.
Prostitutas e velhas cansadas, essas eram as alegorias que representavam o resultado da república no Brasil.
A representação feminina que não obteve caráter pejorativo, que se identificou com o povo, foi promovida pelo governo: - o culto à Virgem Maria, representado na imagem de Nossa Senhora Aparecida.
Além das profundas raízes católicas, essa imagem é negra, identificando-se melhor com a mulher brasileira.
A batalha por essa alegoria no Brasil terminou com a vitória do religioso sobre o cívico.

Símbolos Nacionais
- A formação dos símbolos nacionais mais evidentes e de uso obrigatório: - “a bandeira e o hino”.
A batalha decisiva agora se volta para a representação oficial da República.
Os positivistas conseguiram o mais importante: - a aceitação popular da nova bandeira..
Mantendo-se algumas características da antiga bandeira, era mantida também a tradição cultural e cívica da população.
Além disso, anunciava um futuro próspero com a divisa “Ordem e Progresso”.
Dessa forma, foi feita a ligação entre o passado, o presente e o futuro.

No caso do hino, a vitória foi completamente da tradição. O hino composto por Francisco Manuel da Silva já se enraizara na tradição popular, tornando-se um símbolo da nação.

- A República só teve êxito quando se voltou às tradições mais profundas, mesmo algumas sendo alheias às suas características.

A ausência popular na proclamação criou uma grande barreira para a legitimação do novo regime, o qual obteve êxito apenas quando se voltou à “tradição religiosa e imperial”.

- Porém, um mito, mesmo quando muito forte, deve ser constantemente alimentado.
Entre a verdade dita e escrita, entre a história real e a criada, existe o Patriotismo, no direto e no dever da defesa dos interesses de todos os brasileiros.

Referência bibliográfica:

CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas: - o imaginário da República no Brasil. São Paulo: - Companhia das Letras, 1990.

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